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ANO NOVO E SUAS PROMESSAS



Ah, o ano novo. A época do ano em que a esperança ressurge, que o amor pelo próximo desencanta – mesmo que o próximo seja um desconhecido e que no calor da emoção, bêbado, diante de um monte de fogos de artifício, você deseja feliz ano novo e tudo de bom na vida daquela pessoa –, e claro, o precioso momento em que fazemos muitas promessas para o ano que entra. Promessas essas que jamais serão cumpridas.
Quantas vezes, você, curtindo o reveilion com os amigos na praia, com os pés cheios de areia, espremido no meio de 2 milhões de pessoas, num calor infernal, apertado para mijar fazer xixi, mas com medo de ir na água e se perder da galera na volta, ou simplesmente assistindo ao show da virada com a família na sala de estar e sua tia pulando ao show da Claudia Leite como se estivesse numa micareta, refletiu pra si mesmo: ‘Esse ano eu tenho que deixar de ser obeso. Dessa vez é pra valer.’

E aí você faz uma promessa pra Deus, joga oferenda pra Iemanjá e diz: ‘Eu juro minha mãe mortinha que dessa vez eu vou cumprir.’ A essa altura do campeonato já passou de meia noite e já estamos no dia 1º de janeiro. Isso significa que a promessa já está valendo. É quando você abre a geladeira e se depara com aquelas rabanadas que sobraram do Natal, aquele pudim que você sempre deixa um pedacinho no final da bandeja para dizer que não foi o último a comer; é nesse momento que você se tranca em seu quarto para fazer uma oração... e desfaz a promessa porque não quer que sua mãe morra.
Mas não tem problema, porque você também fez uma promessa dizendo que esse ano você ia entrar numa academia, fazer exercícios e caminhadas diárias. Essa realmente você cumpre, só até a primeira semana de janeiro. Por que depois começam a surgir imprevistos, como a chuva, o calor, a falta de companhia, a falta de tempo. E você pensa consigo mesmo: ‘Quer saber, eu me amo assim mesmo, com minhas gorduras e pneus de avião. Se eu não me amar quem vai me amar?’. E lá se vão duas promessas e lá vem mais gordura.
Uma outra promessa que é bem comum é: ‘Esse ano vou economizar dinheiro.’ Essa promessa algumas pessoas conseguem até cumprir durante um tempo maior, até o carnaval chegar perto e um dos seus amigos falar que arranjou uma casa de praia para alugar te convidando para passar essa temporada. Você entra nessa, afinal de contas, você é filho de Deus, tem que se divertir. Uma diversão que se resume a uma casa a 10 km da praia e uma praia que parece mais um foco de mosquito da dengue. Então você percebe que uma das quantias mensais de uma dívida bancária desde 2007 se foi.
Bom, se a grana está curta umas das promessas fáceis de se realizar é o vício, como fumar, beber, e outras coisinhas que o problema é de quem faz. E você pensa: ‘Essa vai ser fácil. A grana está curta, vou economizar. Eis que surge um amigo seu filho do capeta que leva as pessoas pro mal caminho: Quer um cigarro? Tá bom.
E quando você percebe em um mês você já comprou 500 maços de cigarro. Na merda, sem um puto no bolso, mas para o vício o dinheiro brota, surge, nasce.
E aí você pensa: ‘Será que eu não vou cumprir nenhuma promessa? Vou. Vou parar de reclamar. É isso. De hoje em diante não reclamo mais.’ Até que você dá uma topada numa pedra e solta um palavrão muito feio, e você se lembra que não podia reclamar. “Tem que começar tudo de novo. Que merda! Ah, que se dane!”
Já sei! Prometo estudar e ler mais. Mas eu só consigo ler revista de fofoca. Meus Deus! Que tortura!
Vou cuidar mais da minha saúde, é isso. Como com esse sistema público de bosta?! SUS lotado! UPA lotada! Clínica da família lotada!
Conclusão, temos duas opções: ou nos comprometemos com nossas mudanças, independente das circunstâncias reais ou as que criamos como obstáculos para não realizarmos nada, ou entregamos nas mãos do Senhor e declaramos “seja o que Deus quiser”. E uma coisa que eu duvido muito é que ele queira algo que nem você quer.
Feliz ano novo e que suas promessas se tornem realidade. Ou não.

- Ayrton Miguel

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