Alô, Salvador!!! Ôh mainha! A banda crise, a crise
financeira. Venha dançar, meu bem! Venha com a crise financeira!
Cadê a crise, meu povo? Cadê? Cadê a revolta contra o Estado, os atrasos de
salários? As esposas dos PMs nas frentes dos batalhões? Cadê as estatísticas?
Cadê o Brasil no fundo do poço? Cadê todo mundo?
Em 2016 o assunto foi crise, só se falou disso. Crise pra lá, crise pra cá.
– Bom dia, Brasil! E o Brasil está na merda, hem. E está sem previsão de sair
dessa pindaíba.
– E as estatísticas mostram que as vacas continuam magras, desnutridas, na
capa, quase morrendo.
Enfim, só se falou nisso. Mas o que eu acho impressionante é que chegou o
carnaval e a crise foi embora, ninguém mais sofre as consequências dela. Parece
que nem passamos o ano inteiro vendo notícias sobre isso.
É claro que tem exceções, mas é incrível, as mesmas pessoas que eu vi postando
no Facebook, ou que puxaram assunto pessoalmente comigo reclamando sobre a
crise, são as mesmas que estão nos blocos ou estão viajando. Até o carnaval
todo mundo é revolucionário, filósofo. Chegou o carnaval todo mundo vira um
rebanho de jumentos.
– Vamos lá, galera. O bloco Bilau do Negão está bombando!
Sempre tem um que posta no Facebook “Bola preta ou Bola Branca? Eis a questão”.
E a fantasia do ser humano está parecendo mais uma fábrica de purpurina. Porque
tem essas pessoas que não tem fantasia, ou não tem criatividade, e improvisam.
Pega uns trecos aqui, outros ali. A calcinha da vó, o boné do tio, enche a cara
de brilho e sai que nem uma maleta de maquiagem.
– Mas, Miguel, as pessoas passam o ano inteiro nesse inferno de situação, sem
poderem se divertir. O único momento que eles podem se divertir é no carnaval.
Sim, concordo. Mas percebe que para tudo tem um jeito? Todo mundo que está no
bloco curtindo e que estavam revoltados com a situação do país deram um jeito
de comprar alguma coisa, de consumir. Não tem como, elas sempre compram alguma
coisa. E de onde vem esse dinheiro? – Sei lá, isso não me importa. – Compra uma
máscara aqui, uma espuma ali – adorava essa espuma quando eu era pequeno. – E
são as mesmas pessoas que diziam que não tinham dinheiro e que a situação delas
não tem jeito.
Agora tem uns que são muito engraçados. Esses ninguém supera, ninguém mesmo.
São aqueles que vivem dizendo que estão sem dinheiro, que quando você vai
naquele barzinho, onde tem aquele frango a passarinho gostoso, sempre fica na
aba de alguém. Nunca divide a conta. – eu já fiz isso várias vezes, mas enfim,
esse não é o foco – Fala que está faltando o leite da filha, que está usando a
mesma cueca o ano inteiro porque não tem dinheiro pra comprar outra. Quando
chega o carnaval posta no Facebook “Alô, Recife!”, “Alô, Espírito Santo!”, “Alô,
Rio de Janeiro!”, – esse saiu de lá do Acre – “Alô, Paris!”. Posta aquele
chekin no Facebook pra mostrar que chegou no lugar, tira foto com a paisagem ao
fundo – e você vê que realmente não é montagem. Esses, ninguém supera! É
surreal a capacidade d’eles ficarem quase ricos no carnaval.
Eu acho que a crise é quase que um estado psicológico do ser humano. É tanta
informação, tanta notícia, tanto conteúdo sobre o assunto que nós acabamos
ficando condicionados com isso. É muito massificação em cima disso. E como a
massa é totalmente comandada pelo sistema, pela mídia, é fácil as pessoas se
colocarem num lugar de vítima e botarem a culpa na crise. Qualquer coisinha é a
crise. “É a crise!” “É por causa da crise.” “Culpa da crise” “Crise, crise,
crise, crise...”
– Falar é fácil, porque você não é um funcionário público com seu salário
atrasado, que está todo endividado e sem comida na dispensa.
E eu tenho certeza que muitos desses funcionários públicos que estavam
revoltados, estão curtindo o carnaval fazendo de serpentina o próprio dinheiro.
E sinto muito, de verdade, por aqueles que estão sofrendo muito com essa
situação do país e que não estão vendo graça nenhuma no carnaval. Porque muitas
festas e eventos dessa época do ano são realizados com o meu, o seu, o nosso
dinheiro.
Aí aparece um monte de manchete assim: “O povo sambando na cara da crise” “Êh,
que beleza! A crise não abala a alegria dos foliões”.
Não abala agora, porque eu quero ver depois na quarta de cinzas.
- Ayrton Miguel
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