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FUI ASSALTADO

– Passa tudo?
– Passa tudo? Tudo que eu conquistei com meu suor? Ok. Com essa faca apontada para mim, não tem muito o que fazer. Toma, leva.
Sim, fui assaltado. Isso se passou dentro do BRT. Sabe o que BRT? Já andou alguma vez? – Pra quem não sabe, BRT é um ônibus do tamanho do pé de feijão do João com uma sanfona no meio. Tem uns que andam meios velhos, meio caídos já. E aí a viagem acaba se tornando um pouco assustadora, parece que o negócio vai tombar. – O assalto não foi dentro estação não, foi dentro do ônibus em movimento.
Quando eu entrei no ônibus já senti um clima estranho. O ônibus já estava enfestado de trombadinha. Parecia aquela excursão de escola pública. Aquele passeio que tem uns moleques que ficam do lado de fora, tocam o terror, batem na lataria do ônibus. Você olha pra eles e diz “Hum... vai tudo ser bandido.” Estou exagerando, é claro. Nem vou falar muito, senão a galera dos direitos dos não humanos vão cair em cima de mim. Mas dane-se, que caiam.
O ônibus estava mais ou menos assim: passeio de escola pública. Tinha uns caras lá na frente cochichando alguma coisa no ouvido um do outro. Pensei para mim “Eles não estão com cara de casal gay.” Daria graças a Deus se fossem, mas não eram. Depois disso, um ficou lá na frente enquanto os outros foram lá para trás.
Próxima estação.
Subiram mais uns moleques esquisitíssimos e reconheceram os outros que já estavam dentro do BRT, e o papo deles era o seguinte: “E aí, mano. Tá na pista ainda?” Eu parti pra pista agora”.
O dicionário Aurélio do Rio de Janeiro informa que “está na pista” significa ou que você tá solteiro, ou que você tá cometendo crimes pelas ruas, pelas praças e BRTs da vida. Tenho quase certeza que eles não estavam falando de relacionamento amoroso entre eles. Era assalto MERMO!!!
Nesse momento eu já estava parecendo o general de dez estrelas do Faroeste Caboclo, estava com o cu na mão.
Próxima estação.
Subiram mais três moleques. Nessa hora eu já estava entregue. Já estava esperando o famoso “perdeu”. Mais ou menos 1 minutos depois que esses moleques entraram, um deles sentou do meu lado. Quando você tá num ônibus praticamente vazio, com pouquíssimas pessoas e alguém senta do seu lado do nada, ou é alguém querendo o seu corpo nu ou é assalto. Infelizmente ninguém estava querendo o meu corpo nu, era um assalto mesmo. Depois que um sentou do meu lado o outro veio com uma faca apontada para minha cara. Eu fiquei tão cagado que a única coisa que eu pensei na hora era que eu não saísse machucado. Só isso. Entreguei minha mochila onde estava tudo meu: celular, pen drive, dinheiro, cartão de crédito. Eles desceram.
Quando eles desceram, os outros garotos que já estavam dentro do ônibus vieram perguntar num tom simpático se tinham levado alguma coisa minha. Só faltou ele perguntar assim:
– Tem mais alguma coisa pra eu levar aí?
– Poxa, hoje não. Deixa pra próxima, tá bom?”
Próxima estação.
Próxima estação.
Duas estações depois eu pensei em voltar. Voltei. Peguei um ônibus no sentido contrário e banquei o James Bond. Quando o ônibus parou na estação onde eles subiram para me assaltar, foi quando eu vi os dois que me assaltaram. O que sentou do meu lado para ver meu corpo nu e o que apontou a faca para mim. Desci da estação. Eles me viram. Aí eu me perguntei qual o dialeto que usaria com eles? “Koé, cumpade”. Pensei em falar assim. Mas aí era arriscado eu tomar uma facada. Então eu fui tranquilo e falei que estava na paz do Senhor e que só queria meus documentos, só isso. – O que me fez voltar foram os documentos. Só de pensar em segunda via.
O desgraçado estava vestido com o meu casaco e teve a cara de pau de olhar pra e dizer “Que, cara? Não fui eu não.”
Eu quase falei “Aaaaah, seu filho da puta”. Mas eu disse “Cara, na boa. Você está com meu casaco. Eu sei que foi você. Só quero meus documentos, só isso.” Ele olhou para mim, teve uma pausa dramática, e disse “Já é, não espalha não, não espalha não. Teus bagulho tão ali.” Minha mochila estava jogada com tudo pra fora. Minha carteira estava lisa, até o cartão do ônibus eles levaram. Não sei porque já que eles pulam a estação e não pagam passagem. Minha agenda estava lá também. Levaram o cartão do banco; e o meu cartão é leitura de impressão digital. Não precisa fazer propaganda aqui de qual banco que é, Itaú. Eu fico imaginando o que eles farão com esse cartão
– Vai lá, vai lá, tenta você agora, meu dedo não serve. 
– Pô, o meu também não serve não.
Meus dois livros que estavam dentro da mochila estavam jogados. Eu quase olhei para eles e disse “Livro não quer, né, filho da puta. Um pouco de cultura não quer, né.” Nisso que eu estava pegando minhas coisas, o moleque que sentou do meu lado e queria meu corpo nu, veio me cumprimentar com um sorriso no rosto. Só faltou ele falar assim “Valeu aí pela colaboração com o nosso trabalho de hoje.” Não entendi nada.
Desejei ardentemente a morte desses vermes, mas como estou mais calmo, desejar um pau para deixar eles aleijados sem poderem mais andar e os braços amputados para não roubarem nem de cadeira de rodas acho que já seria bom.
E eu falo isso e aí vem os defensores de marginais, direitos humanos pra quem não é humano, metidos a filósofos falarem que eu sou cruel demais, que eles são seres humanos. Ser humano sou eu! Que não saio por aí apontando arma na cara de ninguém e tirando o que as pessoas conquistaram com suor. Aí sempre tem um babaca que fala “Nossa. Interessante o seu raciocínio. Quer dizer que seus pertences são mais valiosos que uma vida de um ser humano?” Sim, com certeza são. Por que eu trabalhei duro para ter um simples celular para trabalhar. E chega alguém, coloca uma arma na minha cara e simplesmente me tira isso? Como assim? Com que direito?
“Ah, mas eles não tiveram oportunidade na vida, eles são as vítimas da sociedade. Eles não tem nem consciência do certo e do errado.”
Faça mil favor, eles sabem o que é certo e o errado sim. Vítima fui eu e mais umas milhões de pessoas que sofreram algum tipo de crime. E eu estou bem, não fizeram nada comigo. E as pessoas que morreram depois de um assalto deixando família, deixando filhos? Que saíram gravemente feridas? Cadê os direitos humanos para essas pessoas? Cadê a assistência necessária para as famílias?
E em questão de oportunidade na vida ou a falta dela, isso nunca vai ser desculpa. Eu conheço várias pessoas que não tem pai, não tem mãe, não tem orientação nenhuma na vida, e mesmo assim escolhem o caminho da honestidade. Me explica então a diferença entre essas pessoas que são iguais nas circunstâncias mas diferentes nas escolhas?
Sem contar os traumas que essas coisas causam nas pessoas que sofrem os crimes. Eu por exemplo, consigo me recuperar rápido. No dia seguinte mesmo eu peguei o BRT de novo, mas com um grande medo. Com um certo trauma. E as pessoas que ficam com síndrome do pânico, não tem vontade de sair? Tem pessoas que ficam doentes mentalmente depois de certos acontecimentos. Mas dane-se essas pessoas, não é? Dane-se o que elas estão sofrendo.
Umas horas depois que eu fui assaltado eu postei um negócio no Facebook falando mais ou menos isso que eu estou falando aqui. Que essas drogas tem tudo que morrer, porque não tem jeito. Igual a mim foram um monte só naquele dia. E um escroto comentou assim: “Que crueldade da sua parte desejar a morte deles. Nossa, dessa vez eu fico do lado dos ladrões.”
Vocês tem noção da merda que esse cara disse? Ele disse que fica do lado dos ladrões. Ele não leva nem em consideração o terror que eu sofri com aquela faca na minha cara sem eu fazer nada, sem eu oferecer perigo nenhum. Não leva em consideração que essa imagem vai ficar por um bom tempo na minha cabeça tentando impedir que eu faça as minhas coisas do dia a dia. Pra mim quem comenta um negócio desse é tão criminoso quanto um assaltante.
E o fato de eu desejar que esses bandidos morram ou levem um pau pra nunca mais cometerem crimes, na minha opinião não é crueldade nenhuma, é simplesmente um pedido por uma justiça diferente, que tenha resultados, já que essa nós temos não adianta nada.
Então não banca o Jesus Cristo não. Por que esse negócio de receber um tapa e mostrar a outra face só Ele mesmo conseguiu fazer. Quem comete crime deve ser punido, de uma forma que resolva a situação e não colocando o indivíduo preso e libertar amanhã.

Bom, é isso. Esse é meu desabafo por eu e milhões de pessoas terem sofrido um grande terror na vida, perderem bens conquistados com muita luta, e mais uma vez voltarmos para o belo país das impunidades.

- Ayrton Miguel

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