Meu primeiro filme estreou, e eu estou feliz para cacete.Há mais ou menos uns 6 meses atrás eu decidi me aventurar nessa área de cinema,
e já sabia que ia ser um grande desafio, que não ia ser fácil. Pensei para mim:
“você vai se foder”, “não vai ganhar dinheiro”, “vai ter dor de cabeça”. Dane-se!
Vou fazer! Por que é isso que me move.Desde já eu quero agradecer a todos os envolvidos no projeto, desde os atores
até as pessoas que emprestaram suas casas, seus estabelecimentos para fazer
esse filme. É, foi tudo emprestado. Tudo na base da amizade; casas de amigos,
lojas de amigos. Por que o filme não teve dinheiro nenhum para ser produzido.
Grana zero! Independente! Pobre! Arte urbana! Crise financeira! Como você
quiser chamar.
Se trata de um curta metragem que se chama ‘Poeira’, esse filme é baseado numa
história real de um amigo próximo a mim. Quando você tem amigos, nem tudo eles
contam para você, pois todo mundo tem suas particularidades, seus segredos, que
não devem ser divididos com ninguém. Mas as vezes em alguns momentos, você
deixa escapar um segredo seu. Na maioria das vezes você se arrepende, porque
sua mãe te ensinou a não confiar 100% nas pessoas, que ninguém é seu amigo.
Então você fica com aquele receio de virar a fofoca do ano. E quando isso acontece,
de você contar alguma coisa da sua vida, ou você realmente vira a fofoca do
ano, ou alguém pega esse segredo e transforma em arte. Foi o que aconteceu.
Quando eu ouvi essa história dele, eu tinha que escrever aquilo. E eu via se
passando em forma de filme. Então comecei a roteirizar essa história e mostrei
para uns amigos meus atores. Marquei uma leitura com eles para ver se eles
topavam fazer o filme. Eu lembro que a gente se encontrou num shopping para
fazer essa leitura, mas na praça de alimentação estava um barulho do cacete.
Então fomos para o lado do shopping. Do lado quase os fundos. Sentamos em
blocos de concreto e lemos. No fim da leitura todos estavam empolgadíssimos para
fazer. Abrimos um debate para falar sobre as personagens, sobre a história. Foi
incrível. Mas sempre depois de uma reunião onde tudo é independente, sem grana,
sem patrocínio, bate aquela sensação: “E agora?” Esse é o momento que todo
mundo se despede e falam um para o outro: “Vamos fazer”, “Claro, tamo junto”,
“Temos que fazer”. Você pega a sua condução e fica pensando em como começar para
tirar esse projeto do papel. Quem faz arte independente sabe do que eu estou
falando. Mas deu tudo certo. Na semana seguinte fizemos outra leitura,
começamos um estudo e preparação com o elenco e as filmagens se iniciaram logo
em seguida.Eu tinha que passar uma segurança para equipe que estava envolvida, mas no
fundo eu estava com medo, porque todos estavam confiando em mim. Mas me
mantinha firme. Porque eu nunca tinha operado uma câmera na linguagem de
cinema, não sabia como editar um filme. Edição então, nem se fala. Enfim, tive
que aprender.As primeiras filmagens foram na casa de uma senhora, amiga minha. A Mariah. Ela
emprestou para gente a casa dela para fazer algumas cenas do filme. E o que eu
mais gosto nela é a sinceridade. Uma coisa que eu reparo é que quando o ser
humano chega numa certa idade, não tem mais porque ele ficar engolindo sapo.
Ele fala mesmo! Não gostou, fala. Ficou puto, fala. É o caso da Mariah. Não tem
mais porque ela ficar calada. Não está mais na idade de agradar ninguém.
Apoiado, Mariah!Primeiro dia de filmagem:
MIGUEL – Mariah, a posso tirar essa poltrona daqui e colocar ali?
MARIAH – Puta que pariu, hem!
MIGUEL – É só chegar um pouco pra lá.
MARIAH – Olha só, olha só. Vai arranhar a porra da parede. Arranhou. E agora?
Como é que isso vai sair?
MIGUEL – Mariah, tem como fazer um pouco de silêncio? Porque a gente está
gravando aqui.
MARIAH – Porra, não dá nem mais pra falar na minha própria casa.
MIGUEL – Mariah, a gente pode continuar num outro dia? Porque a gente não
conseguiu terminar hoje.
MARIAH – Você está me dando muito trabalho, hem. Muito trabalho. Tem que ver,
Miguel. Tem que veeeeer...
É assim que se faz um filme sem grana, ouvindo umas verdades
dos amigos, principalmente se for uma amiga de sessenta e poucos anos
descomprometida com a boa vizinhança. Exagerei um pouco sobre a Mariah. É uma
maravilhosa, pego ela direto.São muitas coisas que acontecem durante o processo. Aprendi muito com esse filme,
com todo mundo. E só tenho a agradecer. E posso dar certeza que esse é o
primeiro de muitos que virão.O filme conta a história de um jovem que se chama Beto que tem um
relacionamento conturbado com a sua mãe por causa de uns acontecimentos do
passado deles. O que aconteceu no passado e o vai acontecer com eles você vai
saber vendo o filme, porque eu não vou contar.Quem quiser assistir o filme, é só entrar no YouTube e pesquisar o nome do
canal: Dourado Filmes. Assista!Deixo aqui compartilhado com vocês um pouco da minha experiência de como foi
fazer o meu primeiro filme sendo o roteirista e diretor. Foi maravilhoso!Só sei que nesse mundo do cinema eu sou apenas um espermatozoide que tá no saco
do pai, que ainda está sentindo tesão para transar com a mãe, e eu começar a
germinar no útero dela. – É quase isso. – Nem pensei em nascer ainda. Estou
completamente aberto, arreganhando para críticas construtivas para que eu possa
melhorar nos próximos.
- Ayrton Miguel
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